Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e
povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por
meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; — ou por meio de
matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem,
por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando
em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, —
um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor
tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública;
mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores
desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só
desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas
que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação
perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade,
verdade, nem todas as instituições do antigo regímen mereciam o desprezo do nosso século.
ASSIS, M. O alienista. Disponível em:
www.dominiopubico.gov.br. Acesso em: 2 jun. 2019 (adaptado).
O fragmento faz uma
referência irônica a formas de divulgação e circulação de informações em uma localidade sem imprensa.
Ao destacar a confiança da população no sistema da matraca, o narrador associa esse recurso à
disseminação de