A
caolha
A caolha era uma mulher magra, alta,
macilenta, peito
fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados,
largos nos cotovelos, grossos nos
pulsos; mãos grandes,
ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho;
unhas grossas, chatas e
cinzentas, cabelo crespo, de
uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho,
desse cabelo cujo
contato parece dever ser áspero e
espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo,
pescoço
longo, engelhado, como o pescoço dos urubus;
dentes falhos e cariados. O seu aspecto infundia terror
às
crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura
e extraordinária magreza, mas porque a
desgraçada tinha
um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo;
a pálpebra descera mirrada,
deixando, contudo, junto
ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante.
Era essa pinta amarela sobre
o fundo denegrido da
olheira, era essa destilação incessante de pus que a
tornava repulsiva aos olhos de
toda a gente.
ALMEIDA,
J. L. In: COSTA, F. M. (org.). Os melhores contos brasileiros
de todos os
tempos.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Que
procedimento composicional o narrador utiliza para
caracterizar a aparência da personagem?