Querô
DELEGADO — Então desce ele. Vê o que arrancam desse sacana.
SARARÁ
— Só que tem um porém. Ele é menor.
DELEGADO — Então vai com jeito. Depois a gente
entrega pro juiz.
(Luz apaga no delegado e acende no repórter, que se dirige ao
público.)
REPÓRTER — E o Querô foi espremido, empilhado, esmagado de corpo e
alma num cubículo imundo, com outros meninos. Meninos todos espremidos, empilhados, esmagados
de corpo e alma, alucinados pelos seus desesperos, cegados por muitas aflições. Muitos meninos, com
seus desesperos e seus ódios, empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma no imunda
cubículo do reformatório. E foi lá que o Querô cresceu.
MARCOS, P. Melhor teatro. São Paulo: Global, 2003
(fragmento).