Capitulo LIV — A
pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo,
mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o
bater da pêndula fazia-me muito mai; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada
golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois
sacos, o da vida e o da morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de
menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se
o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar
todos os meus instanles perdidos, invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas
instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e
gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela
noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa, As fantasias tumultuavam-me
cá dentro, vinham umas sobre outras, â semelhança de devotas que se abaíroam para ver o anjo-
cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
ASSIS.
M. Memórias póstumas de Brás Cubas, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992 (fragmento).