Aí pelas três da tarde
Nesta sala atulhada de
mesas, máquinas e papéis,
onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso
do mundo,
aplicando-se em ideias claras apesar
do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem
sobre
problemas que afligem o homem moderno (espécie
da qual você, milenarmente cansado, talvez se
sinta um
tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a
sua volta, componha uma cara de
louco quieto e perigoso,
faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais
severos, dê um largo
“ciao” ao trabalho do dia, assim
como quem se despede da vida, e surpreenda pouco
mais tarde, com
sua presença em hora tão insólita, os que
estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários,
que
você não sabia antes como era conduzida. Convém
não responder aos olhares interrogativos, deixando
crescer, por instantes, a intensa expectativa que se
instala. Mas não exagere na medida e suba sem
demora
ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos,
tirando a roupa do corpo como se
retirasse a importância
das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem
sabe até em pelo, mas
sem ferir o decoro (o seu decoro,
está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa
verdade
provisória, toda mudança de comportamento.
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
Em textos de diferentes gêneros, algumas
estratégias argumentativas referem-se a recursos linguístico-discursivos
mobilizados para envolver o
leitor. No texto,
caracteriza-se como estratégia de envolvimento
a