Pela primeira vez na vida teve pena de haver
tantos
assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu.
Mas uma mosca fez um ângulo reto no
ar, depois outro,
além disso, os seis anos são uma idade de muitas coisas
pela primeira vez, mais do
que uma por dia e, por isso,
logo depois, arribou. Os assuntos que não compreendia
eram uma espécie
de tontura, mas o Ilídio era forte.
Se calhar estava a falar de
tratar da cabra: nunca
esqueças de tratar da cabra. O Ilídio não gostava
que a mãe o mandasse tratar
da cabra. Se estava
ocupado a contar uma história a um guarda-chuva,
não queria ser interrompido. Às
vezes, a mãe escolhia
os piores momentos para chamá-lo, ele podia estar
a contemplar um segredo,
por isso, assustava-se e,
depois, irritava-se. Às vezes, fazia birras no meio da
rua. A mãe
envergonhava-se e, mais tarde, em casa,
dizia que as pessoas da vila nunca tinham visto um
menino
tão velhaco. O Ilídio ficava enxofrado, mas
lembrava-se dos homens que lhe chamavam reguila,
diziam
ah, reguila de má raça. Com essa memória,
recuperava o orgulho. Era reguila, não era velhaco.
Essa
certeza dava-lhe forças para protestar mais,
para gritar até, se lhe apetecesse.
PEIXOTO, J. L. Livro.
São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
No texto, observa-se o uso característico do português de
Portugal, marcadamente diferente
do uso do português
do Brasil. O trecho que confirma essa afirmação
é: