Texto CG1A1-I
Um dos principais motores do avanço
da ciência é a curiosidade humana, descompromissada de resultados concretos e livre de qualquer tipo
de tutela ou orientação. A produção científica movida simplesmente por essa curiosidade tem sido
capaz de abrir novas fronteiras do conhecimento e de, no longo prazo, gerar valor e mais qualidade de
vida para o ser humano.
O empreendimento científico e
tecnológico é, sem dúvida alguma, o principal responsável por tudo que a humanidade construiu ao
longo de sua história. Suas realizações estão presentes desde o domínio do fogo até as imensas
potencialidades da moderna ciência da informação, passando pela domesticação dos animais, pelo
surgimento da agricultura e indústria modernas e, é claro, pela espetacular melhora da qualidade de
vida de toda a humanidade no último século.
Além da curiosidade humana, outro
motor importantíssimo do avanço científico é a necessidade de solução dos problemas que afligem a
humanidade. Viver mais tempo e com mais saúde, trabalhar menos e ter mais tempo disponível para o
lazer, reduzir as distâncias que separam os seres humanos — por meio de mais canais de comunicação
ou de melhores meios de transporte — são alguns dos desafios e aspirações humanas para cuja
solução, durante séculos, a ciência e a tecnologia têm contribuído.
Apesar dos feitos extraordinários da
ciência e dos investimentos públicos em ciência e tecnologia, verifica-se uma espécie de movimento de
deslegitimação social do conhecimento científico no mundo todo. Recentemente, Tim Nichols, um
reconhecido pesquisador norte-americano, chegou a anunciar a “morte da expertise”, título de seu livro sobre o conhecimento na sociedade atual, no
qual ele descreve o sentimento de descrença do cidadão comum no conhecimento técnico e científico
e, mais que isso, um certo orgulho da própria ignorância sobre vários temas complexos, especialmente
sobre qualquer coisa relativa às políticas públicas. Vários fenômenos sociais recentes, como o
movimento antivacina ou mesmo a desconfiança sobre a fatalidade do aquecimento global, apesar de
todas as evidências científicas, parecem corroborar a análise de Nichols.
A despeito da qualidade de vida ter
melhorado nos últimos séculos, em grande medida graças ao avanço científico e tecnológico, a
desigualdade vem aumentando no período mais recente. Thomas Piketty evidenciou um crescimento
da desigualdade de renda nas últimas décadas em todo o mundo, além de mostrar que, no início deste
século, éramos tão desiguais quanto no início do século passado. Esse é um problema mundial, mas é
mais agudo em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde ainda abundam problemas crônicos
do subdesenvolvimento, que vão desde o acesso à saúde e à educação de qualidade até questões
ambientais e urbanas. É, portanto, nesta sociedade desigual, repleta de problemas e onde boa parte da
população não compreende o que é um átomo, que a atividade científica e tecnológica precisa se
desenvolver e se legitimar. Também é esta sociedade que decidirá, por meio dos seus representantes,
o quanto de recursos públicos deverá ser alocado para a empreitada científica e
tecnológica.
Internet: <www.ipea.gov.br> (com
adaptações).